SÉRIE • ECOSSISTEMAS DE INOVAÇÃO
Durante o redesenho do modelo que hoje orienta o próximo ciclo do Porto Digital, realizamos uma escuta estruturada com empresas em diferentes estágios de maturidade. O resultado nos surpreendeu: cada grupo esperava algo completamente diferente do Porto Digital. Empresas nascentes, empresas em crescimento e organizações maduras tinham demandas distintas, enquanto nós, muitas vezes, oferecíamos respostas semelhantes para problemas que não eram os mesmos.
Essa experiência reforçou uma percepção que há algum tempo vem amadurecendo na minha pesquisa. A política de inovação no Brasil ainda é construída, em grande medida, a partir da lógica de um funil: forma-se o estudante, ele se torna empreendedor, cria uma startup, capta investimento, cresce e amadurece. É uma sequência linear, fácil de representar em um slide e igualmente fácil de transformar em indicadores de desempenho.
O problema é que ecossistemas não funcionam como cadeias de produção. Funcionam como sistemas.
A diferença não é apenas conceitual. Em uma cadeia, cada elo entrega para o seguinte e encerra sua participação. Em um sistema, os diferentes atores permanecem interagindo continuamente. Empresas maduras demandam talentos, universidades formam esses talentos, startups surgem para resolver problemas reais das empresas, investidores influenciam as estratégias de crescimento e o mercado testa, ao mesmo tempo, a capacidade de todos esses atores responderem aos desafios colocados pela economia.
O desenvolvimento, portanto, não acontece dentro de cada elo, mas nas conexões estabelecidas entre eles.
Essa mudança de perspectiva altera também aquilo que uma política de inovação deveria medir. O foco deixa de ser apenas quantas startups nasceram ou quanto investimento foi captado e passa a ser a capacidade do ecossistema de criar conexões efetivas entre educação, pesquisa, empreendedorismo, empresas, governo e mercado. Um ecossistema pode apresentar excelentes indicadores em cada uma dessas dimensões isoladamente e, ainda assim, produzir poucos resultados, simplesmente porque elas permanecem desconectadas.
Ecossistemas não são a soma de bons programas. São a qualidade das relações que conseguem construir.
Quando essas conexões não existem, o que chamamos de ecossistema é apenas uma coleção de iniciativas que compartilham o mesmo território, mas não a mesma dinâmica de desenvolvimento..
Este artigo integra a série Ecossistemas de Inovação, publicada em função do lançamento do NERD — Núcleo de Estudos em Ecossistemas de Inovação e Residência Digital. As ideias aqui apresentadas dialogam com o position paper “Escalando Ecossistemas de Inovação: A Proposta do NERD para o Próximo Ciclo do Porto Digital”, que propõe uma nova abordagem para o desenvolvimento de ecossistemas orientados ao crescimento empresarial, à geração de empregos qualificados e ao aumento da competitividade regional.
