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ANTES DO ÓBVIO

Artigo

Ecossistemas não existem para produzir startups. Existem para produzir empresas.

3 ago, 2026 4 min de leitura

SÉRIE • ECOSSISTEMAS DE INOVAÇÃO

Ao longo da última década, consolidou-se uma forma particular de avaliar ecossistemas de inovação. Em vez de medir sua capacidade de transformar conhecimento em produtividade, empregos qualificados e competitividade, passou-se a valorizar indicadores de visibilidade: número de startups incubadas, empresas aceleradas, rodadas de investimento anunciadas, posições em rankings nacionais ou internacionais e quantidade de eventos realizados.

Esses indicadores têm seu valor. Eles ajudam a acompanhar a dinâmica do ecossistema e oferecem sinais importantes sobre sua capacidade de mobilização. O problema surge quando deixam de ser instrumentos de avaliação e passam a definir o próprio objetivo da política pública. Quando isso acontece, cria-se aquilo que chamo de economia de vitrine: um ecossistema construído para ser visto, e não necessariamente para produzir desenvolvimento econômico.

O equívoco não está nas startups. Toda empresa inovadora nasce pequena. O problema começa quando a startup deixa de ser entendida como uma etapa da trajetória empresarial e passa a ser tratada como o destino final da política de inovação.

Na realidade, startup não é uma categoria econômica. É apenas um estágio temporário do desenvolvimento de uma empresa. Nenhum empreendedor sonha em permanecer eternamente uma startup. O sucesso consiste justamente em deixar de sê-lo: conquistar mercado, estabilizar receitas, estruturar processos, contratar pessoas e transformar-se em uma empresa competitiva.

Essa distinção parece simples, mas produz consequências profundas na forma como governos, universidades e organizações desenham seus programas de inovação.

Quando o objeto central da política pública passa a ser a startup, a maior parte dos recursos concentra-se no início do ciclo. Editais de ideação, pré-aceleração, aceleração, mentorias e programas de incubação multiplicam-se porque geram resultados rápidos e facilmente comunicáveis. É relativamente simples anunciar quantas startups foram apoiadas, quantas participaram de programas ou quanto captaram em investimentos.

Já acompanhar quantas dessas empresas permanecem vivas cinco ou dez anos depois, quantos empregos qualificados geraram, quanto exportam, quanto investem em pesquisa ou quantas se transformaram em empresas de referência exige muito mais tempo e muito mais capacidade institucional. A consequência é previsível: mede-se aquilo que é fácil medir, e não necessariamente aquilo que gera desenvolvimento.

O resultado é um funil invertido. Muitos empreendedores entram, poucos conseguem atravessar a fase de crescimento e um número ainda menor alcança a maturidade necessária para funcionar como empresa âncora do ecossistema.

É justamente nessa transição que reside o maior desafio dos ecossistemas brasileiros.

Criar startups é relativamente barato. Construir empresas competitivas exige muito mais. Exige acesso a mercado, formação contínua de talentos, mecanismos de financiamento para expansão, internacionalização, conexões com grandes empresas, capacidade de inovação permanente e um ambiente institucional capaz de sustentar décadas de crescimento.

Os ecossistemas mais bem-sucedidos do mundo não se destacam porque produzem muitas startups. Destacam-se porque conseguem transformar algumas delas em empresas relevantes. São essas empresas que contratam milhares de profissionais qualificados, exportam tecnologia, pagam impostos, atraem novos investimentos, inspiram outros empreendedores e alimentam um ciclo contínuo de inovação.

É nesse momento que o ecossistema deixa de produzir apenas empresas e passa a produzir desenvolvimento.

Por isso, talvez a principal pergunta que deva orientar qualquer política pública de inovação não seja quantas startups nasceram este ano.

A pergunta correta é outra:

Quantas pessoas trabalham, em empregos qualificados, nas empresas que este ecossistema ajudou a formar ou atrair?

Essa pergunta muda completamente a lógica da política pública. Ela obriga o gestor a olhar para toda a trajetória empresarial: da formação de talentos nas universidades até a consolidação de empresas capazes de competir globalmente. Obriga também a reconhecer que inovação não termina quando nasce uma startup; ela apenas começa.

Trocar o critério de sucesso da visibilidade para a permanência muda o tipo de ecossistema que se constrói.

Ecossistemas não existem para produzir startups.

Startups são apenas a porta de entrada.

O verdadeiro objetivo de um ecossistema de inovação é construir empresas capazes de gerar empregos qualificados, elevar a produtividade, produzir tecnologia e sustentar o desenvolvimento econômico de longo prazo. Quando isso acontece, a inovação deixa de ser uma vitrine e passa a cumprir sua função mais importante: transformar conhecimento em prosperidade.


Este artigo integra a série Ecossistemas de Inovação, publicada em função do lançamento do NERD — Núcleo de Estudos em Ecossistemas de Inovação e Residência Digital. As ideias aqui apresentadas dialogam com o position paper “Escalando Ecossistemas de Inovação: A Proposta do NERD para o Próximo Ciclo do Porto Digital”, que propõe uma nova abordagem para o desenvolvimento de ecossistemas orientados ao crescimento empresarial, à geração de empregos qualificados e ao aumento da competitividade regional.

Nem tudo que importa já tem nome.

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