A pergunta que a discussão sobre inteligência artificial e emprego costuma fazer é quase sempre a mesma: quantos postos de trabalho vão desaparecer? Acho que essa pergunta olha para o lugar errado. A que me interessa é outra: qual vai ser a nova porta de entrada para quem está começando agora? Um relatório recente da Organização Internacional do Trabalho sobre emprego juvenil aponta para uma transformação menos espetacular do que uma onda de demissões, mas mais concreta — está ficando mais difícil começar.
Os números globais dão a dimensão do problema. O desemprego entre jovens de 15 a 24 anos chegou a 12,4% em 2025 no mundo, 67 milhões de pessoas. Depois de tocar, em 2023, o menor nível deste século, a taxa voltou a subir — em 105 países, contra queda em apenas 58.
O Brasil acrescenta outra dimensão ao problema. Um diagnóstico do Ministério do Trabalho e Emprego, com dados da Pnad Contínua deste ano, mostra desemprego de 13,8% entre jovens de 18 a 24 anos — mais que o dobro da taxa nacional, de 5,8%. Entre adolescentes de 14 a 17, chega a 25,1%.
Mas o número que mais me interessa é outro. Dos 13,9 milhões de jovens brasileiros ocupados, 84% estão em funções genéricas de comércio e serviços — balconista, vendedor, escriturário — que não exigem formação específica. Apenas 2,15 milhões estão em ocupações técnicas ou de nível superior. É esse balcão, esse caixa, essa mesa de escritório que está mudando de formato diante dos nossos olhos.
Ninguém nasce experiente. Durante muito tempo, o jovem entrava numa empresa justamente para fazer as tarefas mais simples e repetitivas — organizar informação, atender um cliente, emitir uma nota, montar uma planilha. Essas tarefas tinham uma função dupla, que raramente é reconhecida como tal: eram produtivas para a empresa e formativas para o jovem. Era fazendo esse trabalho que ele aprendia a trabalhar — prazo, hierarquia, cliente, erro, revisão, responsabilidade.
Isso funcionou durante décadas sem que ninguém precisasse desenhar formalmente esse sistema. A universidade entregava um jovem com determinada formação, e a empresa completava boa parte da aprendizagem profissional — não por missão social, mas porque precisava daquele trabalhador para tarefas básicas. Havia uma coincidência conveniente entre a necessidade produtiva da empresa e a necessidade de aprendizagem do jovem.
A inteligência artificial pode desfazer justamente essa coincidência. E aqui não vejo vilão nenhum: é absolutamente legítimo que uma empresa busque produtividade. Se uma equipe menor, com boas ferramentas de IA, entrega mais, é natural que ela faça isso. O que muda é que a empresa continua tendo sua necessidade produtiva atendida, mas pode deixar de precisar de boa parte do trabalho júnior que também servia, sem que ninguém tivesse planejado, como processo de formação. De uma hora para outra pode surgir um vazio entre o que a universidade entrega e o que a empresa passa a exigir.
A OIT é cuidadosa nesse ponto — o relatório não afirma que a IA já esteja causando uma onda de desemprego juvenil, mas reúne evidência que merece atenção. Um estudo de Erik Brynjolfsson, Bharat Chandar e Ruyu Chen encontrou, nos Estados Unidos, queda relativa de 16% no emprego de trabalhadores entre 22 e 25 anos nas ocupações mais expostas à IA. No Reino Unido, outro estudo encontrou redução de 4,5% concentrada quase toda em cargos juniores. Há evidência em direção diferente também: um estudo da própria Anthropic, citado pela OIT, não encontrou aumento sistemático de desemprego entre os mais expostos — mas encontrou desaceleração na contratação dos mais jovens. Talvez estejamos olhando para o número errado. A transformação pode não aparecer primeiro na demissão, e sim na vaga que simplesmente deixa de ser aberta.
O Brasil ajuda a ver a outra metade do mesmo problema — porque aqui a dificuldade não é só entrar, é ficar. O mesmo diagnóstico do Ministério do Trabalho mostra que 38,2% dos jovens de 18 a 24 anos saem do emprego antes de completar um ano; entre adolescentes, o índice sobe para 52%. Mais da metade. Ninguém aprende uma profissão em onze meses de vínculo instável, e a informalidade entre adolescentes ocupados, em 72,8%, torna esse aprendizado ainda mais difícil de acontecer. A porta não está só mudando de formato — em muitos casos, ela já gira rápido demais para que alguém aprenda alguma coisa do outro lado.
Há uma segunda camada nessa história que considero mais importante do que qualquer estatística de desemprego, e é sobre a universidade, não sobre a empresa. Nas últimas décadas, muitos cursos foram se especializando cada vez mais, tentando funcionar quase como cursos técnicos sofisticados, ensinando habilidades bem específicas para atender à demanda imediata do mercado. Na minha leitura, esse movimento empobreceu intelectualmente boa parte da formação universitária — trocou repertório amplo por competência estreita, apostando que a estreiteza pagaria melhor.

A inteligência artificial começa a expor os limites dessa aposta, e de um jeito irônico. Quanto melhor a máquina fica em executar uma tarefa específica, menor a vantagem de formar uma pessoa apenas para dominar aquela tarefa específica. O que continua escasso — e só fica mais valioso — é exatamente o que a hiperespecialização deixou de lado: cultura geral, repertório, capacidade de interpretar um problema antes de resolvê-lo, de formular a pergunta certa, de estabelecer conexão entre áreas que a especialização separou. O conhecimento técnico não deixa de importar. Deixa de ser suficiente. Se a ferramenta cuida cada vez mais do “como”, o desempenho humano passa a depender do “o quê”, do “por quê” e do “para quê” — e isso é justamente o que um curso desenhado para responder rápido ao mercado tende a não ensinar.
O caso do Canadá mostra que isso não é fenômeno só brasileiro. O emprego entre adolescentes de 15 a 19 anos caiu 13% desde 2023 — 116 mil jovens a menos trabalhando. A taxa de emprego desse grupo foi de 42% para 33,5% em três anos. A OIT lembra que essas primeiras experiências, em geral de meio período, valem mais do que o salário: é ali que se aprende pontualidade, responsabilidade, convivência — e se ganha a primeira linha de currículo que abre a próxima oportunidade.
Não acredito numa condenação permanente de uma geração ao desemprego. A economia vai se adaptar, o mercado vai reorganizar incentivos, novas funções vão nascer — inclusive muitas que hoje não conseguimos nomear. O que me preocupa não é o destino final dessa história. É a travessia. A velha porta pode fechar antes que a nova esteja pronta, e a construção da porta nova não vai depender só da empresa, nem só da universidade, nem só do governo. Vai exigir concertação entre os três: universidades repensando o que significa formar alguém, empresas inventando novas formas de ensinar dentro do trabalho, políticas de estágio e aprendizagem sendo atualizadas na velocidade da mudança, não na velocidade da burocracia.
Nem tudo nessa história é perda. Há lugares onde já podemos enxergar sinais de construção de portas novas. Acompanho de perto o crescimento recente do emprego em tecnologia em Pernambuco, que mostra que a economia do conhecimento também cria oportunidades quando temos um arranjo produtivo que escala, como é o caso do Porto Digital. O ecossistema vem apostando, inclusive, em programas de conversão de carreira: capacitação intensiva para pessoas que não vieram originalmente da área de tecnologia, mas podem passar a trabalhar nela. Não é a mesma porta de entrada de vinte anos atrás. É outra, sendo construída porque alguém percebeu que ela precisava existir.
Estamos em ano eleitoral no Brasil, e vamos ouvir muito sobre emprego, educação, produtividade, desenvolvimento. Escuto pouco, no entanto, a pergunta que considero mais urgente: como a próxima geração vai entrar num mercado de trabalho que está sendo redesenhado agora, em tempo real? Não é um problema tecnológico. É um problema de desenvolvimento, de desenho institucional e de escolha política — e tem prazo de validade, porque os 32,9 milhões de jovens brasileiros de hoje não podem esperar a transição terminar para começar a trabalhar.
Não se trata de preservar o trabalho antigo. Trata-se de construir, depressa, a entrada para o trabalho novo.
