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ANTES DO ÓBVIO

Artigo

Muito além dos números: o que a seleção da Finep revela sobre Pernambuco

10 ago, 2026 5 min de leitura

Sempre que a Finep divulga o resultado de um edital, a primeira reação costuma ser olhar para a lista de empresas contempladas. É natural. Afinal, são elas que receberão os recursos e desenvolverão os projetos. Mas esse tipo de leitura, embora necessária, normalmente deixa escapar aquilo que considero mais interessante. Editais como esse acabam funcionando também como um retrato da capacidade de inovação de um território. Mais do que identificar boas empresas, eles ajudam a mostrar quais ecossistemas conseguiram amadurecer a ponto de produzir organizações capazes de competir nacionalmente por recursos destinados ao desenvolvimento tecnológico.

O resultado preliminar da 2ª Rodada do Finep Mais Inovação Brasil – Subvenção Econômica Regional parece ilustrar bem essa ideia. Das 37 propostas recomendadas para projetos realizados no Nordeste, 11 pertencem a empresas pernambucanas. O Rio Grande do Norte aparece em seguida com seis projetos; Alagoas teve quatro; Bahia e Ceará, três cada. Pernambuco, sozinho, praticamente dobrou o desempenho do segundo colocado. O número é expressivo, mas talvez o aspecto mais relevante não esteja na liderança do estado. Está no fato de que esse desempenho dificilmente pode ser explicado apenas pela competência das empresas selecionadas. Há algo maior por trás dele.

Durante muito tempo, a política brasileira de ciência, tecnologia e inovação foi desenhada a partir da concentração já existente no país. Os maiores investimentos acabavam naturalmente direcionados para o Sul e o Sudeste, onde estavam as universidades mais estruturadas, os principais parques industriais e boa parte da infraestrutura científica nacional. Não era uma decisão irracional. Era consequência da própria distribuição da capacidade tecnológica brasileira. O problema é que esse modelo também dificultava o surgimento de novos polos de inovação em outras regiões, reforçando um círculo que se retroalimentava.

É justamente essa lógica que os editais regionais da Finep procuram enfrentar. Ao reservar recursos especificamente para Norte, Nordeste e Centro-Oeste, a política pública deixa de olhar apenas para empresas individualmente consideradas e passa a reconhecer a importância dos territórios onde elas estão inseridas. A inovação deixa de ser tratada apenas como uma política empresarial e passa a integrar uma estratégia de desenvolvimento regional. Essa mudança talvez seja mais importante do que o próprio edital. Afinal, empresas inovadoras raramente surgem isoladamente. Elas dependem de pessoas qualificadas, instituições de pesquisa, disponibilidade de capital, redes de cooperação e ambientes capazes de transformar conhecimento em novos negócios.

Quando olhamos os números de Pernambuco, essa interpretação parece fazer sentido. Das onze empresas recomendadas pela Finep, dez estão sediadas no Recife. Mais do que isso, sete possuem endereço no território do Porto Digital: Bidweb Security IT, Neurobots, Suporte de Administração Gerencial, Nuclearis, VLDT Studio, BCB Pesquisa de Mercado e FindUP Tecnologia. Isso significa que aproximadamente 19% de todas as propostas recomendadas para o Nordeste estão concentradas em empresas instaladas em um único ambiente de inovação. Não considero esse um dado meramente estatístico. Ele sugere que o Porto Digital atingiu um grau de maturidade capaz de produzir empresas competitivas de forma recorrente, e não apenas casos isolados de sucesso.

Michael Porter demonstrou, ainda no início da década de 1990, que empresas inseridas em clusters competitivos tendem a inovar mais porque compartilham um ambiente favorável ao aprendizado, ao surgimento de fornecedores especializados, à circulação de conhecimento e à formação de talentos. Ao longo das últimas décadas, a literatura sobre ecossistemas de inovação apenas aprofundou essa percepção. Organizações inovadoras não prosperam apenas por suas competências internas. Prosperam porque fazem parte de redes capazes de ampliar sua capacidade de aprender, cooperar e competir. O Porto Digital parece confirmar exatamente essa hipótese. Seu principal ativo nunca foi apenas a infraestrutura física instalada no Bairro do Recife, mas a densidade das relações construídas entre empresas, empreendedores, investidores, universidades e instituições públicas.

Ao mesmo tempo, o resultado também sugere uma agenda para o futuro. Das onze empresas pernambucanas recomendadas, apenas uma está localizada fora do Recife: a J. N. de Sousa Ferreira, de Araripina. Não vejo isso como uma limitação do Porto Digital. Vejo como um desafio para a política estadual de inovação. Se a Finep procura reduzir as desigualdades regionais brasileiras por meio de editais específicos, talvez Pernambuco deva discutir como reduzir suas próprias desigualdades internas, fortalecendo ambientes de inovação no Agreste, no Sertão e na Zona da Mata, respeitando as vocações econômicas de cada região. Interiorizar não significa reproduzir o Porto Digital em outras cidades, mas construir ecossistemas próprios, conectados às características locais.

Talvez essa seja a principal mensagem escondida por trás desse resultado. Os recursos serão contratados, os projetos serão executados e, em alguns anos, esse edital será apenas mais um entre tantos outros lançados pela Finep. O que permanecerá será outra coisa: a capacidade de um território continuar formando empresas inovadoras, disputando novos investimentos e transformando conhecimento em desenvolvimento econômico. Costumamos medir políticas públicas pelos recursos que distribuem. Talvez devêssemos começar a medi-las também pelos ecossistemas que conseguem construir. Se esse for o critério, os números divulgados pela Finep sugerem que Pernambuco fez uma aposta correta há mais de duas décadas. Agora, o desafio deixa de ser provar que esse modelo funciona. Passa a ser fazê-lo alcançar uma parcela cada vez maior do estado.

Nem tudo que importa já tem nome.

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